(Artigo publicado no Primeiro de Janeiro, Das Artes e das Letras, 2000/02/09)
A chamada realidade virtual é um dos paradoxos dos nossos dias. Mas a própria expressão levanta desde logo uma dificuldade: se uma coisa é real, por que raio é que ela poderá ser considerada virtual? E, se uma coisa é virtual, como é que ela poderá ser entendida como real? Acontece que uma das utilidades dos nossos cada vez mais potentes e sofisticados computadores consiste em criar simulações do mundo natural, isto é, cópias mais ou menos realistas daquilo a que costumamos chamar real. Essas actividades são extremamente úteis na medida em que nos permitem compreender melhor o mundo que tentamos reproduzir. Criar uma cópia é uma maneira de saber mais sobre o original. Podemos simular não apenas o mundo real, o mundo em que vivemos, mas também mundos fictícios a fim de procurar responder a questões sobre a viabilidade e a habitabilidade desses mundos. Podemos divertidamente criar e recriar tanto mundos de verdade como mundos de fantasia. Contudo, a sofisticação técnica poderá chegar a tal ponto que isto que pode ser como um jogo deixe de ser simples e
identificável como tal. O jogo pode ser sério ou, o que vem a dar no mesmo, pode parecer sério.
Hoje programamos no computador galáxias, planetas e pedras. Programamos moléculas,
células e seres vivos (a chamada "vida artificial"). Programamos também cenários virtuais que só a imaginação concebe e povoa. As possibilidades parecem abertas e ilimitadas. As simulações estão a atingir níveis de um realismo impressionante. Nos dispositivos de realidade virtual há uma interacção entre um utente (real, suponhamos) com um ambiente informático (virtual, digamos) que se faz passar por real. As possibilidades e aplicações desses dispositivos são óbvias. É num simulador que os pilotos de aviação adquirem experiência de voar antes de realmente o fazerem. A simulação pode ser, de facto, tão realista que alguns até dizem que é melhor do que a realidade podendo ser até mais excitante que esta, subindo-se sucessivamente de "nível", com o pormenor interessante de nunca se perder a vida.
A limitações actuais são evidentes: passam por colocar a cabeça num capacete ou a mão numa luva de comando. É aqui que me interrogo: o que será afinal o futuro? O que sabemos nós desta realidade já tão pouco clara e certa? Será que estaremos a falar de um mundo em que, contrariamente a Newton e às evidências, as massas não atraem massas?
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